Do (novo/velho) Jornalismo

Já há poucos jornalistas em Portugal com o estatuto do Paulo Moura, daqueles que escrevem muito e bem. Grande repórter do jornal “Público”, tem produzido nos últimos tempos alguns dos retratos mais dolorosos do nosso país. Prémios, louvores, muitas partilhas nas redes sociais (um novo símbolo para “sucesso”) e mesmo uma polémica com direitos de resposta em jornais concorrentes foram algumas das reacções. Mas é um caso raro.

O trabalho no terreno, o cuidado com a escrita e o tempo de maturação/confirmação dos factos são marcas que trespassam cada linha dos seus artigos. A tirania dos call-centers (Os call-centers vão salvar a economia portuguesa?) e a perda do Rendimento Social de Inserção por quem reside em bairros pobres (SOS na Zona Pobre) são apenas os últimos exemplos. A questão é: porquê o Paulo e não todos?

As críticas sobre o jornalismo e os jornalistas dos tempos que correm não são novas, nem mais incisivas. São as mesmas de sempre, elevadas ao extremo pela frustração crescente de quem quer trabalhar mas não consegue, de quem sonhou com as linhas do Talese, do Wolf, da Gelhorn, do Fisk, do Kapuscinski, do/a _________________________ (acrescentar nome de referência/ídolo) e não tem tempo para lhes seguir os passos, de quem vê recusadas as histórias que poderiam ser retratos dolorosos do país, porque reais, mas que nunca passam de uma nota no fundo da página, ou de um artigo transvestido de informação, direccionado a um tipo de leitor que não existe. Muitas vezes, é também frustração de quem escreve o que lhe pedem para ter o que comer.

A crise da empregabilidade numa área cada vez mais indefinida (o que é, afinal, o jornalismo?), a quebra nas receitas publicitárias, os despedimentos colectivos e o, consequente, esvaziamento das redacções construíram um monstro, uma massa disforme que presta homenagem a dois dogmas: chegar primeiro e chegar antes do outro chegar. O resto é secundário.

A dependência dos comunicados de imprensa, dos registos das agências, dos directos televisivos, é apenas um sintoma da doença. O esmagamento da agenda é um dos vírus mais poderosos. A falta de uma referência na mesa ao lado – um jornalista sénior, sabido, conhecedor das manhas e das responsabilidades – e a “obrigatória” consulta da Internet para confirmar todas as informações (por “falta de tempo”, muitos nem chegam a fazer um telefonema por dia, quanto mais calcorrear as ruas e falar com as, pasmem-se, pessoas…), resultam num trabalho medíocre, demasiado imperfeito, muito pouco jornalístico. Falta sempre. Tempo, espaço, gente, dinheiro. Falta sempre qualquer coisa.

Novos projectos, como a Carrossel ou o adn80, procuram colmatar essa frustração, essa necessidade. De certa forma, conseguem-no. Nestas novas plataformas, com temas diversos e estilos distintos, chegamos ao cúmulo de grande parte (se não a maioria) dos leitores serem “camaradas de profissão”. Muitos jornalistas, actualmente empregados em grandes órgãos de comunicação social, também procuram estes escapes para libertar a escrita e, assim, libertar as histórias. Não há limite de caracteres, não há facadas nas costas para se chegar primeiro, não há critérios difusos. Entre os que estão nas redacções e os que redigem em casa (para si ou para os outros), há a realidade. Entre um repórter e um fotojornalista, com o posterior apoio de um designer gráfico, que visitam um bairro pobre e falam com as pessoas, sem pressa de mostrar tudo, sem medo de perder o exclusivo, sem receio de melindrar os poderes, há uma grande reportagem. Precisamos de muitas mais. Ou o jornalismo acaba mesmo.

JP

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